*Carlos Alberto Chiesa
O sistema de saúde brasileiro vive um paradoxo. Nunca tivemos hospitais tão tecnológicos, equipes tão especializadas e recursos tão avançados para salvar vidas. Ao mesmo tempo, convivemos com um desafio crescente. Os hospitais de alta complexidade têm operado muito perto dos seus limites de ocupação, dificultando o acesso de novos pacientes.
Segundo o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a taxa de ocupação operacional geral padrão considerada segura e eficiente varia entre 75 e 85%, faixa que permite que o hospital absorva picos de demanda na emergência sem risco de superlotação.
Hoje, porém, instituições de saúde de referência em diferentes regiões do país convivem com taxas elevadas, em alguns casos superiores a 95%, um patamar que tensiona a operação, impacta o fluxo assistencial e reduz a previsibilidade do cuidado.
Esse cenário nos convida a refletir sobre uma lacuna histórica da jornada do tratamento. O que acontece entre a estabilização clínica no hospital geral e o retorno seguro para casa?
Durante décadas, enxergamos apenas dois caminhos possíveis. Ou se permanecia internado em um hospital de alta complexidade ou se seguia diretamente para o home care. Mas há um terceiro elo, cada vez mais consolidado no mundo e também no Brasil, os hospitais de transição.
Desospitalizar não significa interromper o cuidado, mas dar continuidade a ele no ambiente mais adequado para cada fase da recuperação. Muitos pacientes já não precisam da intensidade tecnológica de um grande hospital, mas ainda demandam reabilitação, com acompanhamento multiprofissional, suporte clínico e ganho funcional antes da alta definitiva.
É importante deixar claro que uma transferência para um hospital de transição não representa uma perda assistencial. Pelo contrário.
De forma geral, ela acelera a recuperação, reduz riscos de reinternações em até 35% (pela menor chance de infecções e contaminações) e aumenta a qualidade de vida do paciente, ao mesmo tempo em que amplia a eficiência no uso dos leitos de alta complexidade.
Isso beneficia todo o sistema. Quando um leito de alta complexidade é liberado no momento correto, outra pessoa que precisa daquele recurso especializado pode ser atendida. Trata-se de um ciclo virtuoso de cuidado e de responsabilidade coletiva.
Essa mudança já começou. Médicos têm incorporado, com precisão crescente, critérios clínicos para indicar hospitais de transição. Hospitais gerais, diante da pressão por leitos e da necessidade de eficiência assistencial, vêm estruturando fluxos de desospitalização. Operadoras também começam a reconhecer ganhos em qualidade, sustentabilidade e coordenação do cuidado.
Ainda assim, esse modelo só alcançará todo o seu potencial com a adesão plena de quatro atores: os hospitais, os médicos, as operadoras de saúde e, sobretudo, os pacientes e suas famílias. Precisamos compreender que recuperação é um processo contínuo. O hospital de transição não substitui o hospital geral, ele amplia sua capacidade de cuidar. Em um sistema cada vez mais pressionado, desospitalizar com segurança talvez seja uma das decisões mais humanas, eficientes e estratégicas para a saúde brasileira.
*Carlos Alberto Chiesa é CEO do Placi
