*Por Carlos Alberto Chiesa
Pouca gente conhece, mas os hospitais de transição estão ganhando destaque como uma das soluções mais inteligentes e sustentáveis para os desafios atuais da saúde no Brasil. Em um sistema sobrecarregado, com leitos escassos, custos crescentes e uma população que envelhece rapidamente, essas unidades oferecem uma resposta estratégica: cuidam de pacientes que já passaram da fase mais crítica da internação, mas que ainda precisam de suporte médico, reabilitação ou acompanhamento mais próximo antes de voltar para casa.
Ao contrário do que muitos imaginam, o hospital de transição não é um lugar onde se “estaciona” o paciente por tempo indeterminado. Pelo contrário: trata-se de um ambiente preparado para promover a recuperação funcional, reduzir complicações, garantir qualidade de vida e, principalmente, evitar internações desnecessárias em hospitais de alta complexidade. Na prática, isso significa cuidado mais adequado, menos desperdício e mais chances de o paciente voltar a viver com autonomia.
Esse modelo representa um investimento direto na sustentabilidade do sistema de saúde. Do ponto de vista econômico, ele é mais eficiente porque evita que pacientes permaneçam em hospitais caros quando já não precisam de cuidados intensivos. Segundo o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), cerca de 20% das internações hospitalares poderiam ser evitadas ou substituídas por modelos alternativos como os hospitais de transição e o cuidado domiciliar. Além disso, a diária em um hospital de transição pode custar até 50% menos que em um hospital tradicional, justamente por contar com uma estrutura menos voltada para procedimentos de alta tecnologia e mais voltada para o acompanhamento contínuo.
Essa economia faz diferença tanto para os planos de saúde quanto para o sistema público, que vive sob pressão constante. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia apontou que a adoção de leitos de transição em hospitais públicos reduziu em média 30% o tempo de permanência em unidades de emergência e resultou em queda de 25% nos custos operacionais. É uma conta que fecha: menos tempo em hospital, menos risco de complicações e menor custo para o sistema.
Mas os benefícios não são apenas financeiros. Há também um ganho enorme no aspecto social e humano. Muitos pacientes internados por longos períodos em hospitais gerais – especialmente idosos e pessoas com doenças crônicas – acabam se debilitando ainda mais por ficarem em ambientes inadequados para suas necessidades. Nos hospitais de transição, eles recebem cuidado especializado, de forma mais acolhedora e menos invasiva. A presença de equipes multidisciplinares, com médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas e psicólogos, permite um olhar integral para a saúde da pessoa.
Além disso, essas unidades facilitam a chamada “desospitalização segura”. Em outras palavras, preparam o paciente – e também a família – para que ele possa retornar para casa com mais segurança e menos risco de nova internação. Essa transição cuidadosa evita o vai-e-volta para o hospital, que é exaustivo para o paciente e caro para o sistema.
Outro ponto importante, e pouco discutido, é o impacto ambiental da saúde. Hospitais tradicionais são grandes consumidores de energia elétrica, água e materiais descartáveis. Um ambiente de terapia intensiva, por exemplo, exige aparelhos funcionando 24 horas por dia, equipamentos sofisticados e uma quantidade imensa de insumos. Já os hospitais de transição, por não dependerem de tecnologia pesada, geram menos resíduos, usam menos energia e têm menor impacto ecológico. Alguns já adotam práticas sustentáveis, como o uso de energia solar, reciclagem de resíduos e controle mais rigoroso do consumo de água. Ou seja, investir em hospitais de transição também é uma maneira de tornar o sistema de saúde mais ecologicamente responsável, uma preocupação cada vez mais urgente em todas as áreas.
Experiências internacionais também mostram que o modelo funciona. No Reino Unido, por exemplo, existem as chamadas Intermediate Care Units, equivalentes aos hospitais de transição, desde os anos 2000. Lá, esse tipo de cuidado reduziu em até 30% as reinternações em hospitais gerais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também tem defendido que os países ampliem a oferta de cuidados intermediários como forma de garantir um sistema de saúde mais resiliente diante do envelhecimento populacional. No Brasil, há várias iniciativas que já incorporam práticas de cuidado prolongado com bons resultados. E operadoras privadas, também têm apostado em unidades próprias para cuidados de transição. A tendência é de crescimento.
Tudo isso mostra que o hospital de transição é muito mais do que uma estrutura alternativa: é uma estratégia inteligente para o presente e essencial para o futuro. Ele representa um cuidado mais humanizado, uma gestão mais eficiente dos recursos e um compromisso com a sustentabilidade em todas as suas dimensões – econômica, social e ambiental. Num país que terá, em poucos anos, mais idosos do que crianças, e onde o sistema de saúde já opera no limite, modelos como esse serão cada vez mais necessários.
A boa notícia é que a tecnologia, a experiência acumulada e os bons exemplos já nos mostram o caminho. Agora, é preciso que governos, operadoras de saúde e a sociedade reconheçam o valor dos hospitais de transição como um investimento estratégico – e não como um custo adicional. Porque cuidar melhor das pessoas, de forma mais consciente e eficiente, é também cuidar melhor do futuro de todos nós.
*Carlos Alberto Chiesa é médico e CEO do Placi – Cuidados Extensivos
